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domingo, 7 de agosto de 2011

Crianças em baixa no rádio e na TV

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O Brasil sempre exibiu programas infantis memoráveis, que fizeram história na televisão: Sítio do Pica-Pau Amarelo, Vila Sésamo, TV Colosso, Rá Tim Bum, Bozo, Balão Mágico, Castelo Rá Tim Bum, Cocoricó. Alguns ainda estão no ar, como o Cocoricó, Castelo Rá Tim Bum e Vila Sésamo, ambos na TV Cultura. Mas esses são as ditas raras exceções.


As atrações dedicadas às crianças praticamente desapareceram da TV aberta brasileira. Ponto para as emissoras do campo público, como as tevês Brasil e Cultura. Ao contrário das comerciais, ambas dedicam parte considerável de suas grades de programação ao público infantil.


Entre às 08h45 e às 16h, de segunda à sexta-feira, os programas infantis dominam a grade da TV Brasil, fazendo jus ao horário considerado Livre pela Classificação Indicativa. E na TV Cultura não é diferente. De segunda à sexta, das 08h15 às 18h45, as crianças é que mandam na programação da emissora, com 11 atrações dedicadas exclusivamente para elas.



Já nas tevês comerciais...


Das emissoras comerciais, as únicas que ainda dedicam algum tempo da grade às crianças são a TV Globo e o SBT, emissoras que até a década de 90 se destacavam entre o público infantil e disputavam de igual para igual os olhares dos pequenos, principalmente nas manhãs.


No SBT, quem se destaca, de longe, na audiência e na programação, é o mexicano Chaves, exibido em dois horários pela emissora paulista. O canal veicula apenas duas produções próprias voltadas às crianças: Carrossel Animado e Bom Dia e Cia, com destaque para os desenhos animados importados. A faixa da programação infantil vai de 07h30 às 14h15, de segunda à sexta-feira, considerando a programação oficial da geradora, em São Paulo.



Já a TV Globo reduziu drasticamente a programação voltada para as crianças. Restou a fraca e inexpressiva TV Globinho, com apenas 1 hora e 25 minutos de duração (de 10h40 às 12h05). Ainda assim, a atração se resume a desenhos animados enlatados e mais nada.


Logo a Globo, que já fez história com atrações como Sítio do Pica-Pau Amarelo, Balão Mágico, TV Colosso e até com o Xou da Xuxa, hoje preenche as manhãs da emissora com programas direcionados ao público adulto, entre jornalísticos e os que abordam temas como saúde e variedades sem grande importância para o público.



A Rede TV! tem o TV Kids, um programa dedicado aos animês (desenhos animados japoneses), e mais nada. E a Record é tão ruim quanto a co-irmã Rede TV!. Durante a semana, nenhuma atração preparada para as crianças é exibida pela emissora do bispo Edir Macedo. Nos fins de semana, a Record veicula o Record Kids, em que exibe exaustivamente as peripécias maliciosas do Pica-Pau, e é só.



Crianças fora das ondas do rádio



Faço aqui um desafio: quem conhece alguma emissora de rádio, seja comercial ou pública, nacional ou local, que transmita pelo menos um programa direcionado às crianças? Difícil, não é verdade? FMs ou AMs, não importa a frequência da estação, mas uma coisa é certa: as rádios brasileiras não gostam de criança. Vide a inexistência de programas dedicados a elas.



A quase totalidade das rádios brasileiras passam o tempo tocando música, muitas delas retratando o universo dos adultos, como amor, sexo, separação, traição. Sem contar, claro, aquelas de baixíssima qualidade, que prezam pelo duplo sentido. E tudo isso em qualquer horário, tendo, muitas vezes, o público infantil como um de seus principais ouvintes.



É público e notório: à exceção de poucos, seja no rádio ou na TV, as crianças não têm vez e voz nos canais de comunicação mais populares do Brasil! Além de cotas para a programação regional e independente, chegamos a um momento em que a militância que luta pela democracia na comunicação deve cobrar para que se inclua a produção e a exibição de conteúdo voltados para as crianças como obrigações a serem cumpridas pelas concessinárias e permissionárias de radiodifusão, sejam elas públicas, privadas ou comunitárias. Valorizando, obviamente, produções nacionais.



Participe e comente!


Relembre os programas infantis que mais marcaram a TV brasileira e comente aqui no blog. E se você conhece alguma rádio que dedique parte de sua programação às crianças, deixe um comentário e compartilhe com a gente!


Se não mudamos nós, a mídia não muda!



Até a próxima!


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domingo, 24 de julho de 2011

Prestar serviço público não é exclusividade das emissoras públicas


Em um país como o Brasil, onde o sistema de radiodifusão é dominado pelo modelo de televisão privado/comercial, em que apenas cinco grandes redes abocanham quase a totalidade da audiência e da receita publicitária, e ainda prezam pela veiculação de produções de baixíssimo nível, tornou-se habitual pensar que emissoras de rádio e TV de caráter público devem cumprir as tarefas que as demais não cumprem.


Tais tarefas seriam, principalmente, as de oferecer uma programação de mais qualidade, voltada para um conteúdo de caráter educativo e informativo. Não há dúvidas de que o principal objetivo de emissoras públicas de rádio e TV é prestar um serviço público, focado no cidadão, sem se preocupar em agradar o mercado publicitário.


No entanto, todos sabemos que oferecer aos brasileiros uma programação que valorize conteúdos educativos, culturais, informativos e artísticos não é tarefa única e exclusiva da radiodifusão pública.


A Constituição Federal de 1988, em seu artigo 221, determina que "A produção e a programação das emissoras de rádio e televisão atenderão aos seguintes princípios:


I - preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas;


II - promoção da cultura nacional e regional e estímulo à produção independente que objetive sua divulgação;


III - regionalização da produção cultural, artística e jornalística, conforme percentuais estabelecidos em lei;


IV - respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família".


Como podemos perceber, o artigo constitucional não diferencia a radiodifusão pública da comercial ao determinar o cumprimento dos princípios a serem seguidos nas programações das emissoras de rádios e tevês.


A obrigação de veicular uma programação que respeite a família, a criança e o adolescente; que valorize a diversidade cultural e regional brasileira; que proporcione espaço para a exibição de produções independentes, não pode ficar na conta somente das emissoras públicas de rádio e televisão.


Afinal, o sistema público de radiodifusão no Brasil é, historicamente, em especial o de TV, bastante incipiente e subdesenvolvido se comparado ao privado. Ainda não possui o mesmo alcance das redes comerciais. Nos estados, por exemplo, boa parte das emissoras públicas de rádio e TV carece de infraestrutura, de financiamento e de recursos humanos, servindo de impeditivos para oferecem à sociedade uma programação de qualidade, tanto em termos estéticos quanto de conteúdo.


É óbvio: o Estado deve investir num sistema público de comunicação forte, abrangente e acessível a todos os brasileiros. Inclusive, desde 2008, temos em pleno funcionamento a Empresa Brasil de Comunicação (EBC), detentora de duas emissoras de TV (a TV Brasil e TV Brasil Internacional), de oito emissoras de rádio (entre elas a Rádio Nacional e a Rádio MEC) e de uma agência de notícias (a Agência Brasil).


No entanto, o modelo de negócios adotado não pode servir de justificativa para que as emissoras comerciais descumpram os princípios constitucionais acima destacados. Na condição de serviço público que é a radiodifusão no Brasil, é obrigação de emissoras públicas (educativas, culturais, legislativas e comunitárias), privadas e estatais atuarem de forma a valorizar em suas programações um conteúdo voltado para a cidadania, a cultura, a educação e à formação crítica da sociedade através da informação.


Talvez o surgimento de um novo, moderno e democrático marco regulatório possa tornar realidade o que hoje são, na prática, meras recomendações constitucionais.


Se não mudamos nós, a mídia não muda!


Até a próxima!

domingo, 1 de maio de 2011

RTV-ES: propostas de modernização e de conteúdo de emissoras serão encaminhadas ao governo estadual



Título original: Nova estrutura da RTV-ES será levada ao governador do Estado


Matéria publicada originalmente no portal da Assembleia Legislativa do ES (29/04/11)


Por Margareth Cock / Web Ales






A elaboração de uma minuta, a ser encaminhada ao Governo do Estado até o dia 15 de maio, contendo as principais reivindicações em investimento tecnológico e conteúdo de programação do sistema Rádio e TV Espírito Santo (RTV-ES), bem como assegurar recursos no Plano Plurianual (PPA) e na Lei Orçamentária Anual (LDO), foram as principais deliberações tomadas na sessão especial que discutiu "A TV e a Rádio Espírito Santo que Queremos".




Tendo como proponente o deputado Claudio Vereza (PT), a sessão foi realizada no Plenário Dirceu Cardoso da Assembléia Legislativa (Ales), com a presença de secretários estaduais e municipais de Comunicação, professores da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), diretores e funcionários da RTV-ES, bem como representantes da TV Pernambuco, que apresentou as iniciativas que estão em andamento visando a reestruturação da televisão pública naquele Estado.





O deputado Claudio Vereza destacou que o atual Governo se mostrou sensível a uma reformulação do sistema RTV-ES, mas é preciso uma mobilização para garantir maiores investimentos. Para isso, segundo ele, é necessário que tais recursos estejam contemplados no PPA, na LDO e no Orçamento. "É preciso garantir recursos para viabilizar uma nova estrutura para a RTV-ES, e isso tem que ser urgente porque tanto o PPA quanto a LOA serão encaminhados à Assembleia até o dia 30 de maio", sentenciou.




Os participantes defenderam a necessidade de autonomia administrativa e de programação, a adoção de um modelo de gestão eficiente, realização de concurso público, criação de um conselho representativo, garantia de maiores investimentos, sistema misto de gestão e também a ampliação do sinal, com abrangência de qualidade em todos os municípios capixabas.



Presente à sessão, a superintendente estadual de Comunicação, Sandra Cola, falou sobre desafios do sistema. "A TV é uma emissora estatal, seu orçamento é ligado ao orçamento do Executivo e seus funcionários são funcionários do Governo, mas a TV Educativa consegue ampliar o leque de conteúdo com programação voltada para a cultura, arte, cidadania e lazer".




Reconheceu as dificuldades que a Rádio e a TV Espírito Santo vêm enfrentando nos últimos anos, mas disse que O Governo vem realizando investimentos. "Um novo transmissor, com a capacidade de 50 kilowatts, vai cobrir todo o Estado e será instalado na localidade de Queimado, na Serra". Ela sinalizou para a construção do Parque Radiante, local onde ficará a torre de transmissão da rádio.




O deputado Claudio Vereza se comprometeu em apresentar ao governador Renato Casagrande (PSB) um documento contendo propostas e sugestões de melhorias no sistema de comunicação capixaba, com base nos resultados do seminário.


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domingo, 17 de abril de 2011

A TVE e a Rádio ES que queremos

Historicamente ligadas aos governos estaduais, as emissoras de TV educativas jamais cultivaram uma relação mais estreita com a população. Carentes de infraestrutura, de participação popular na gestão e de recursos financeiros, esses canais geralmente chegam ao público com um sinal, não raro, de baixa qualidade e alcance limitado, o que acaba refletindo em modestos índices de audiência.


Mas com o surgimento da TV Brasil, em 2007 - que permitiu a participação da sociedade na gestão da nova TV através de um conselho curador - e a digitalização do sinal, novos horizontes se abrem para essas emissoras do campo público. E é para abordar esses e outros temas com um olhar mais capixaba que a Assembleia Legislativa do Espírito Santo promove o ciclo de debates A TVE e a Rádio ES que queremos, dia 28 de abril, a partir das 9h.


Serão quatro convidados: Roger de Renor, gerente geral da TV Pernambuco, que irá trazer a experiência da construção de uma nova TV com a participação da sociedade civil e de produtores da área cultural; Marta Kroth, diretora geral da Fundação Cultural Piratini, do Rio Grande do Sul, vai falar sobre o projeto de reestruturação dessa entidade responsável pela TVE gaúcha, dando ênfase na programação local; Ana Veloso, representante da sociedade no Conselho Curador da EBC - órgão que gere a TV Brasil, irá relatar a experiência da participação popular na formulação de políticas públicas para a rede de emissoras de rádio e TV do Governo Federal e da TV Brasil; e Edgar Rebouças, coordenador do Observatório da Mídia Regional (UFES), que irá analisar o papel do sistema RTV-ES junto à sociedade capixaba e debater as definições constitucionais de público, privado e estatal em radiodifusão.


Encerrado os debates, serão formados três grupos de trabalho, os quais irão abordar os temas "Tecnologias de rádio e televisão", "Conteúdos de rádio" e "Conteúdos de TV". As propostas que saírem desses GTs serão encaminhadas ao governo estadual.


O ciclo de debates é aberto ao público, e a participação de todos(as) é indispensável!

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domingo, 5 de setembro de 2010

Eleições 2010: Comunicação não figura entre prioridades de candidatos ao governo capixaba


Planos de governo descartam propostas da 1ª Conferência Estadual de Comunicação


Quatro candidatos ao governo estadual e um ponto em comum: a ausência da comunicação como política pública. Qualquer que seja o vencedor das próximas eleições para o cargo de governador do Espírito Santo, a única certeza que temos é de que a comunicação social não estará entre as prioridades.


Ao ler os programas de governo registrados no TRE-ES pelos candidatos Luiz Paulo Vellozo Lucas (PSDB), Brice Bragato (PSOL), Gilberto João Caregnato (PRTB) e Renato Casagrande (PSB) a comunicação sequer é citada em áreas afins, como educação, direitos humanos, cultura, promoção da igualdade racial, direito das mulheres e políticas LGBT. Setores os quais mantêm fortíssima relação com a comunicação social, estão diretamente ligados a ela.


De forma tímida, a única candidatura ao Palácio Anchieta (sede do governo capixaba) que apresentou alguma proposta para a comunicação foi a de Renato Casagrande. Sem dizer como ou dar maiores detalhes, o programa do candidato do PSB diz que vai implantar um "plano estadual de banda larga". Talvez seja uma extensão do que já começou a ser feito pelo governo Lula, que criou o Plano Nacional de Banda Larga (para ler mais, clique aqui).


Ainda no campo da banda larga, Casagrande quer implantar o "Programa de Inclusão Digital no Meio Rural" e estabelecer parcerias com as operadores de telefonia fixa e móvel para ampliar os serviços de telecomunicações em áreas desprovidas de infraestrutura, incluindo a internet.


Louvável a preocupação em democratizar o acesso à internet de alta velocidade. Entretanto, também seria muito louvável se o candidato favorito ao governo do Espírito Santo apresentasse uma proposta que desse vida nova ao sistema público de rádio e televisão capixaba, formado pela Rádio Espírito Santo AM e pela TVE.


Vale lembrar que o Brasil está em pleno processo de digitalização do sistema de radiodifusão, e as emissoras do campo público não vão ficar de fora. Prova disso é a implantação de uma rede única de transmissão digital para as emissoras de TV públicas liderada pela TV Brasil (canal televisivo criado pelo governo federal em 2007 a partir da fusão da Radiobrás com a TVE).


A pergunta que surge é: como a TV Educativa capixaba irá se inserir nesse cenário? Ela fará parte da rede pública de televisão que está sendo formada com base na TV Brasil? Há tempos a TVE não recebe a atenção que merece dos governantes capixabas, nem mesmo da sociedade organizada. Não sabem eles do quão é importante termos um sistema público de comunicação forte, funcionando como excelente instrumento para a promoção da educação, da cultura, da diversidade e da cidadania.


Mas a surpresa fica por conta da única candidatura verdadeiramente de esquerda, ou seja, a do PSOL, cujo programa de governo traz propostas importantes direcionadas ao povo negro, à cultura, à educação, ao público LGBT, à mulher. No entanto, peca por esquecer da comunicação social, a qual flerta perfeitamente com cada uma das propostas acima.


É importante ressaltar que em 2009 foi realizada a 1ª Conferência Estadual de Comunicação no Espírito Santo. Evento este convocado pelo governo do Estado e que antecedeu a etapa nacional. Inúmeras propostas foram apresentadas e aprovadas pela sociedade civil para democratizar a comunicação no estado; porém, como se vê, foram todas descartadas pelos postulantes ao cargo de governador (clique aqui para ler as propostas da Conferência)


Resta agora à sociedade civil organizada cobrar das autoridades locais, seja no Executivo ou no Legislativo, maior compromisso para as questões ligadas à comunicação social.



Trecho do programa de governo do candidato Renato Casagrande (PSB) dedicado à comunicação


Implantação de um plano estadual de banda larga.


Um dos grandes desafios da sociedade moderna é democratizar o acesso à informação. O advento da internet, redes sociais e das TIC, de um modo geral, trouxe muitos benefícios para a sociedade, mas também desafios. Nesse sentido, torna-se necessária uma ação do governo para democratizar o acesso às redes de alta velocidade.


Telecomunicações no Meio Rural


Implantar o Programa de Inclusão Digital no Meio Rural;


Articular e estabelecer parcerias com as concessionárias de serviços de telefonia fixa e móvel para a implantação de programas de acesso aos serviços de telecomunicações e internet nas localidades e comunidades mais carentes de infraestrutura.

domingo, 29 de agosto de 2010

TV Pública: independente do Estado e do mercado, a serviço do conhecimento e da cidadania

Título original: A serviço do conhecimento e do espírito crítico do telespectador

Publicado originalmente pelo Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC)

Ana Rita Marini

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A televisão pública ideal para o Brasil deve ser independente economicamente, tanto do Estado, quanto da publicidade, e garantir sua existência independentemente dos humores dos governantes do momento. Essa TV precisa conquistar seu espaço e competir – sem obsessão por audiências – com as emissoras comerciais e conseguir tirar a população da condição de refém do modelo dominado pelo marketing. Assim é a televisão pública idealizada por Laurindo Leal Filho (Lalo), cientista social, doutor em Comunicação, apresentador na TV Brasil do programa "Ver TV", entrevistado deste e-Fórum.

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Para Lalo, o entretenimento deve ser um dos pilares da programação na televisão pública, que precisa ainda informar e capacitar o telespectador para ter suas próprias ideias. "O dono da verdade deve ser o público e não a emissora", afirma. Leia a seguir.

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e-Fórum - Como o senhor define "TV pública", considerando a realidade e as necessidades brasileiras?

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Lalo Leal - No Brasil, é imperiosa a necessidade de uma televisão pública nacional forte, capaz de competir em pé de igualdade com as emissoras comerciais. Infelizmente, adotamos aqui o modelo de exploração privada da radiodifusão desde o seu início, sem abrir espaços para alternativas. Isso fez com que a população brasileira ficasse refém de um modelo único, cuja finalidade primordial é a realização de lucros para os seus controladores.

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Descartou-se a ideia da prestação de um serviço de radiodifusão voltado para a ampliação do conhecimento, do incentivo ao espírito crítico e da ousadia na criação de formatos e conteúdos audiovisuais, entre outras características inerentes ao modelo público de rádio e TV.

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No caso específico da televisão, é importante que ela, ao prestar esse tipo de serviço, crie um novo público capaz de exigir também das emissoras comerciais produções de melhor qualidade. Com isso, a TV pública não só cumpriria a sua missão específica, como também contribuiria para a melhoria de todo o conjunto da televisão brasileira.

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e-Fórum - Qual seria o papel do Estado/governo na TV pública que o senhor idealiza?

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Lalo Leal - Ao Estado, acima dos governos, cabe a tutela institucional desses empreendimentos, na medida em que são eles os detentores das respectivas titularidades. Cabe, igualmente, impulsionar essas iniciativas oferecendo as condições institucionais e materiais básicas para o funcionamento desse tipo de emissora.

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Assim como devem alocar recursos para a saúde, a educação e a cultura, os governos têm também a obrigação de investir na televisão pública. Ainda mais no Brasil, onde ela é, para a maioria absoluta da população, a única fonte de informação e de entretenimento. Nesse sentido, a TV Pública torna-se peça importante no aprimoramento da democracia, na medida em que pode oferecer visões de mundo além daquelas determinadas pelo mercado.

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Quanto ao controle, a presença dos governos nos conselhos gestores é importante na medida em que os titulares dos cargos executivos têm o respaldo da sociedade obtido pelo voto. Mas para dar conta da ampla diversidade cultural existente nos pais, é igualmente importante a presença nos conselhos de representantes da sociedade, indicados por ela, em processos abertos e democráticos.

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e-Fórum - Quem deve financiar uma TV pública (além do Estado) e qual seria o mecanismo adequado? Ele incluiria a veiculação de anúncios pagos?

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Lalo Leal - O modelo ideal é o do financiamento autônomo das emissoras públicas, capaz de torná-las independentes tanto do Estado como da publicidade, como ocorre em alguns países europeus onde as emissoras são mantidas exclusivamente pelas taxas pagas pelos telespectadores.

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No caso brasileiro, acredito que não exista cultura nem condições materiais objetivas para que grande parte da população possa assumir mais esse encargo. Dessa forma, o ideal seria a existência de uma cesta de fontes de financiamento capaz de evitar a dependência excessiva da emissora em relação a apenas uma delas.

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Sem dúvida, caberia ao Estado a fatia maior, mas a ela poderiam ser acrescentados recursos de doações e de apoios culturais a programas e programações, por exemplo. Mas propaganda, de forma alguma, descaracteriza a linguagem da emissora e a coloca no mesmo plano das empresas comerciais de comunicação ao passar a disputar, com elas, o mercado publicitário, com o inevitável rebaixamento da qualidade da programação. Quando isso ocorre, o departamento de marketing passa a ter mais poder do que os setores de produção da emissora, impondo critérios de mercado em detrimento da prestação de um serviço público.

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e-Fórum - Trata-se de criar uma nova rede de TVs ou de tentar transformar a rede atual, controlada pelo Estado?

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Lalo Leal - Acredito que, no plano nacional, a TV Brasil está se constituindo na espinha dorsal da nova rede. Falta ainda a universalização do seu sinal para que a programação por ela produzida possa chegar, com alta qualidade técnica, a qualquer parte do país.

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Além disso, diante das dimensões territoriais brasileiras e da sua diversidade cultural, o ideal seria que houvesse, além de um canal nacional, canais públicos regionais e locais. E mais ainda, que pelo menos a emissora nacional pudesse emitir, no mínimo, três programações diferenciadas por três canais independentes: um apenas com programação para crianças, outro exclusivamente de notícias e um generalista para todos os gostos. Por que não? Tecnologia, recursos humanos e financeiros existem, resta acioná-los.

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e-Fórum - A TV Cultura de SP, referência no Brasil, enfrenta grave crise. Estamos perdendo um modelo de TV pública no país?

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Lalo Leal - Crise na TV Cultura de São Paulo não é novidade. Em meados da década de 1980, publiquei um livro (Atrás das Câmeras - Relações entre Cultura, Estado e Televisão. Ed. Summus, SP) sobre essa emissora onde analisava as crises ocorridas desde a sua inauguração, em 1968. De lá para cá, nada mudou.

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Apesar de ser mantida por uma fundação de direito privado, portanto imune à intervenção estatal, a TV Cultura vive sempre sob pressão dos governos de turno do Estado de São Paulo. Ainda que formalmente autônomo, o Conselho Curador da Fundação Padre Anchieta é muito submisso às imposições dos governos do Estado e muito distante da sociedade. No entanto, não acredito que o modelo esteja se perdendo.

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Na minha opinião, ele pode ser mantido e aprimorado. Começando, por exemplo, com a ampla divulgação dos nomes e dos contatos de todos os conselheiros da Fundação Padre Anchieta e das suas disponibilidades de horários para o atendimento do público. Afinal, eles não são os representantes da sociedade? Para exercer essa tarefa, o requisito número um é ouvir os seus representados.

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e-Fórum - Qual seria o tipo de programação ideal para uma TV pública? Deveria abdicar de transmitir novelas, por exemplo?

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Lalo Leal - Não. O entretenimento deve ser um dos pilares da programação de uma TV pública e nele a dramaturgia deve ter um papel central. Por que não levar ao ar séries teatrais baseadas em clássicos da literatura universal contando com os recursos cenográficos e técnicos consagrados pelas novelas?

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A programação deve ser atraente, construtiva, de bom nível, que dê conta de toda a riqueza cultural produzida no país. Sem obsessão por altas audiências, mas também sem desprezá-las. Buscando atender aos mais variados gostos do público, dentro de padrões éticos e estéticos elevados. "O serviço público de rádio e televisão deve tornar o popular respeitável e o que é respeitável popular", resumia Alasdair Milne, diretor geral da BBC nos anos 1980.
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Para deixar tudo isso mais claro, dou exemplos de como seria parte da programação de uma rede pública. Deve, por exemplo, resgatar os programas musicais de qualidade, exibindo-os no horário nobre, na faixa das 20h, concorrendo diretamente com as novelas e os telejornais das emissoras comerciais. Aliás, a música já foi, em outras épocas, o carro-chefe das programações das grandes emissoras brasileiras. Hoje ele é apêndice dos interesses das gravadoras.

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No domingo à tarde, por exemplo, quando o público brasileiro está acostumado a ver programas de auditório – sempre os mesmos, a mesma coisa - é possível fazer um programa agradável, estimulante, sem cair na baixaria. A TV Bandeirantes colocou no ar o programa 'É tudo improviso', feito por um grupo de teatro que trabalha com humor de alto nível. Esse grupo numa TV pública, num domingo à tarde, estaria conquistando telespectadores desses programas de variedades para um outro nível de produção artística e até levando gente ao teatro e à música mais elaborada.
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Outro exemplo seria o da rede tendo como missão dar ao público um cinema de bom nível, nacional e estrangeiro, exibido sem intervalos. Algo que alguns canais a cabo já fazem para poucos privilegiados (menos de 10% da população brasileira). Para não falar da necessidade de uma programação infantil sedutora, com conteúdo educativo, mas sem loiras, prêmios ou merchandisings. E um jornalismo crítico e independente, capaz de oferecer ao telespectador informações que o habilite a tomar, ele próprio, suas decisões. O dono da verdade deve ser o público e não a emissora.
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O Brasil, infelizmente, é uma das poucas grandes democracias do mundo que não exibe debates políticos na TV como rotina. Eles surgem, como raios em céu azul, às vésperas das eleições, completamente engessados. Dá inveja ver, por exemplo, os programas de debates políticos regulares na TV argentina ou os debates sobre os temas do dia, toda a noite, na TV britânica.
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Se um dia a TV pública brasileira atingir essas metas, estaremos dando um salto de qualidade nunca visto em nossa televisão. Aproximando-a do modelo britânico, reconhecido como o melhor do mundo. E que tem como um dos seus objetivos "despertar o público para ideias e gostos culturais menos familiares, ampliando mentes e horizontes, elevar a qualidade de vida do telespectador, em vez de meramente puxá-lo para o rotineiro com programas concebidos como uma forma de capacitar o telespectador para uma enriquecedora experiência de vida. Parece sonho não? Mas sem ele, estaremos condenados à mediocridade.
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e-Fórum - Quais são as perspectivas para a TV pública brasileira, considerando as mudanças que ocorrerão nos governos federal e estaduais?
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Lalo Leal - O ideal seria que não houvesse mudança nenhuma. Que as emissoras seguissem suas vidas independentemente dos humores dos governantes do momento. Sei que isso é difícil por aqui. A ameaça, já superada, de uma vitória da oposição a nível nacional colocaria em risco o projeto da TV Brasil. Daí a necessidade da criação de mecanismos de controle e financiamento estáveis para todas as TVs públicas como forma de blindá-las contra qualquer tentativa de retrocesso.

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Laurindo Leal Filho - Cientista social, doutor em Ciências da Comunicação pela USP e pós-doutor pelo Goldsmiths College da Universidade de Londres. Publicou os livros "Atrás das Câmeras, relações entre Estado, Cultura e Televisão". "A melhor TV do mundo, o modelo britânico de televisão", "A TV sob controle, a resposta da sociedade ao poder da televisão" e "Vozes de Londres, memórias brasileiras da BBC", além de artigos sobre cultura e comunicação, com ênfase na televisão, em publicações científicas e de divulgação.

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Professor aposentado da Escola de Comunicações e Artes da USP, é ouvidor-geral da Empresa Brasil de Comunicação e apresentador do programa Ver TV, exibido pela TV Brasil e pela TV Câmara. Atuando, principalmente, nos temas: política, políticas públicas de comunicação, televisão, televisão pública, rádio e jornalismo. Foi Secretário de Esportes, Lazer e Recreação da Prefeitura Municipal de São Paulo na gestão Luiza Erundina (1989/1993).

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sábado, 12 de dezembro de 2009

Cobertura especial das emissoras públicas de rádio e TV para a 1ª Confecom

Ao contrário das emissoras comerciais de rádio e televisão, que quanto menos tocarem no assunto melhor para elas, as redes públicas e estatais já estão mobilizadas para cobrir na íntegra toda a 1ª Conferência Nacional de Comunicação, a ser realizada em Brasília, a partir desta segunda-feira (14/12), até o dia 17 (quinta-feira).


A TV estatal NBR transmitirá ao vivo toda a Confecom, da abertura até a plenária, momento em que as propostas de políticas públicas são apresentadas. Segundo informa o sítio oficial da 1ª Confecom, a NBR vai liberar seu sinal a qualquer emissora interessada em reproduzi-lo.

A boa notícia é que o sinal da NBR alcança mais de mil emissoras em todo o Brasil, garantindo acesso de uma grande fatia da população ao debate. A estatal pode ainda ser captada por antenas parabólicas em qualquer ponto do país. E além da TV, outro meio a ser utilizado para reforçar a transmissão da Confecom é a internet, por meio do sítio oficial da Conferência (www.confecom.com.br) e em seu próprio sítio (www.ebcservicos.ebc.com.br/veiculos/nbr/nbr-aovivo).

A TV Brasil e a Agência Brasil (ambas da Empresa Brasil de Comunicação – EBC) também preparam uma cobertura completa do maior evento da comunicação social brasileira. Serão produzidas reportagens, que serão veiculadas no telejornal Repórter Brasil (da TV Brasil) durante os quatro dias em que vai acontecer do evento.

As emissoras de rádio da EBC, segundo informa o sítio oficial da 1ª Confecom, também irão cobrir a Conferência, veiculando entrevistas e debates entre 9h30 e 10h e das 16h às 16h30, direto do evento. As rádios da EBC também farão parte desse time de emissoras públicas e estatais na cobertura da Conferência de Comunicação.

A Rádio Agência Nacional irá disponibilizar um link para qualquer pessoa acessar entrevistas e reportagens do evento, e com download gratuito. O sítio da rádio é
www.ebc.com/radioagencia.

A Associação de Rádios Públicas do Brasil (Arpub) também terá produção especialmente voltada para a Confecom. A transmissão da Arpub será de terça a quinta-feira, de 18h às 18h30.

Como concessões públicas que são, redes de rádio e TV comerciais também deveriam ter o compromisso público de dar a devida importância à 1ª Conferência Nacional de Comunicação. Mas infelizmente, não há qualquer possibilidade disso acontecer.

Para quem não cumpre os princípios constitucionais mais básicos, como valorizar conteúdos de caráter educativo, informativo, cultural e regional em suas programações, é exigir demais que elas prestem à população um serviço público como esse, embora devêssemos exigir, sociedade ou governo.

A página oficial da 1ª Confecom (
http://www.confecom.com.br) também transmitirá ao vivo a Conferência. Inclusive, já foram publicados os cadernos com todas as propostas a serem debatidas nos 15 Grupos de Trabalho (veja e baixe em http://www.confecom.com.br/propostas). Vale lembrar que o tema da 1ª Confecom é Comunicação - Meios para Construção de Direito e de Cidadania na Era Digital. São três os eixos temáticos: Produção de Conteúdos, Meios de Distribuição e Cidadania: Direitos e Deveres.

Até a próxima!

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sábado, 24 de outubro de 2009

A mídia em terras capixabas: um retrato da comunicação no Espírito Santo (Parte I)

O Mídia Aberta, por mais de um ano, tratou de falar da realidade dos meios de comunicação em todo o Brasil: o coronelismo eletrônico marcante das regiões Norte e Nordeste, a concentração das grandes redes nacionais geradoras de conteúdo de rádio e TV no eixo Rio-São Paulo, traçou um mapa da mídia nas mãos de católicos e evangélicos, entre outros temas relacionados.

Agora, com a ajuda do portal
Donos da Mídia e outras fontes, chegou o momento de averiguar o que se passa num estado cercado por grandes centros urbanos e protagonistas na produção de conteúdo escrito, sonoro e audiovisual para todo o país. Refiro-me ao Espírito Santo, lugar este desprovido de um espaço cativo na grande mídia nacional, mas que merece ser alvo de um olhar crítico sobre os meios de comunicação que abriga.

Famílias, grupos empresariais e propriedade cruzada
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A concentração da propriedade observada na grande mídia brasileira não é um aspecto exclusivo dos centros urbanos de abrangência nacional, como o eixo Rio - São Paulo. No Espírito Santo, formas bastante tradicionais de controle de diferentes meios de comunicação (como rádio, TV, jornais, revistas e internet) por um mesmo grupo simultaneamente – característica esta da propriedade cruzada - também são comuns.

Em terras capixabas, são poucos os grupos de mídia que dominam os diferentes veículos de comunicação de massa, e todos têm como seu carro-chefe um canal de televisão. São eles os porta-vozes e representantes locais dos interesses dos maiores conglomerados midiáticos do país (Globo, SBT, Record, Bandeirantes e Rede TV!).

Em evidência estão algumas famílias que comandam os veículos de comunicação de maior incidência no Espírito Santo, a exemplo dos Buaiz (Rede Vitória de Comunicação) e dos Lindenberg (Rede Gazeta de Comunicações), como também os grupos empresariais, que atuam em diferentes setores da economia – como o Grupo Buaiz (Rede Vitória de Comunicação, Shopping Vitória, Buaiz Alimentos, entre outros negócios), e o Grupo Industrial João Santos (cimento Nassau, Nassau Editora, Rádio e TV Ltda, Rede Tribuna de Comunicações, entre outros segmentos).

Mapa da mídia capixaba



Segundo mostra o portal Donos da Mídia, ao todo, são 142 veículos no Espírito Santo, que possui 13 geradoras de TV, a maioria localizada na capital, Vitória. O estado ainda recebe por meio de 223 retransmissoras a programação de 17 redes de TV.

Abriga um número considerável de rádios comunitárias (28 emissoras), superando o número de rádios OM (AM – 20 emissoras) e tendo perto da metade do número total de rádios FM (47 emissoras).

Quanto à imprensa escrita, os capixabas contam com 12 jornais - a maioria desses de circulação limitada aos municípios – e quatro revistas. Os veículos impressos de influência estadual (são três jornais apenas) estão concentrados em Vitória.

Dois grupos de comunicação se destacam no estado. Primeiro a Rede Gazeta, afiliada à Rede Globo, tem 9 veículos (um a mais que o citado pelo Donos da Mídia), sendo 4 veículos de TV espalhados em quatro regiões diferentes do estado (confira tabela abaixo). Na internet, detém o Gazeta On Line. É o grupo de mídia mais poderoso do Espírito Santo e, com a ajuda de sua nave-mãe (a Rede Globo), domina a audiência no rádio e na TV.




À exceção no quesito jornal, veículo em que a Rede Gazeta perdeu a hegemonia para o jornal A Tribuna, propriedade da rede do mesmo nome. Afiliado ao SBT, a Rede Tribuna ocupa o segundo lugar no estado. Possui 5 veículos, também nos mais diversos segmentos (jornal, TV, rádio AM e FM e internet).



Outros três grupos de comunicação privados merecem destaque, embora não demonstrem a mesma influência e abrangência dos anteriores. São eles a Rede Vitória de Comunicação (afiliada à Rede Record), que possui três veículos (uma rádio AM e outra FM, e a TV Vitória), a TV Capixaba (afiliada à Rede Bandeirantes ou Band) e a Rede TV! ES (afiliada à Rede TV!).

A surpresa na pesquisa fica por conta do Sistema de Comunicação Adventista, grupo de mídia ligado à Igreja Adventista. Eles detêm três veículos, todos emissoras de rádio, sendo uma AM e duas FM.

Veículos de controle público

Os meios de comunicação de caráter público não possuem – nem de longe – a mesma força dos demais. O Governo do Estado, por exemplo, detém a RTV-ES, uma rede que inclui uma emissora de rádio (a Rádio Espírito Santo AM) e um canal de televisão (a TVE). Já a Empresa Brasil de Comunicação (EBC, antiga Radiobras), pertencente ao Governo Federal, aparece com uma estação de rádio AM no interior capixaba.

Na próxima edição do Mídia Aberta, vamos conhecer mais características que marcam a paisagem das comunicações no Espírito Santo.

Até a próxima!

domingo, 1 de março de 2009

A Saga das Rádios Comunitárias no Brasil (Parte I)


Veículo de comunicação popular tenta ser firmar como voz das comunidades e instrumento de cidadania, porém enfrenta legislação restritiva

Em um encontro que reuniu vereadores de todo o Brasil mês passado em Brasília, o ministro das Comunicações Hélio Costa fez um apelo a todos os parlamentares para que divulgassem a importância das rádios comunitárias em seus municípios. Mas será que o maior problema desse segmento de radiodifusão é (apenas) a falta de divulgação para a sociedade?

Os obstáculos enfrentados pelas emissoras de rádios comunitárias no país vão muito mais além, e englobam desde uma legislação restritiva, lentidão na análise dos pedidos de autorização até as perseguições por autoridades reguladoras e policiais. Mas antes, na primeira parte deste artigo, vamos explicar o que é uma Rádio Comunitária, qual o processo de criação de uma estação desse tipo, quais os caminhos percorridos até a autorização do serviço e ainda destacar as restrições impostas pela lei que regulamenta o setor.

Definição e propósitos
Rádio Comunitária é uma emissora que opera em freqüência modulada (FM), em baixa potência (máximo de 25 watts) e cobertura restrita a um bairro, outorgada exclusivamente a fundações e associações comunitárias, sem fins lucrativos, com sede na localidade de prestação do serviço. O prazo para operação de uma emissora é de 10 anos, podendo ser renovado por mais 10 caso a entidade tenha cumprido com as obrigações contidas na lei que rege o setor.

As rádios comunitárias devem funcionar com a finalidade de promover a integração e a melhoria da qualidade de vida das comunidades onde atuam, através de informação direcionada à cidadania e ao interesse público; além de constituir um espaço para a divulgação da cultura local e para o debate das diversas demandas no âmbito de cada comunidade. Não é permitido às rádios comunitárias utilizarem seu espaço para fazer proselitismo político ou religioso, mas sim devem estar abertas à diversidade de opiniões e vertentes de pensamento dos moradores.


Como requerer uma rádio comunitária
A entidade que quiser prestar o serviço de rádio comunitária deve encaminhar um formulário chamado Demonstração de Interesse ao Ministério das Comunicações que, sem seguida, publicará um Aviso de Habilitação no Diário Oficial da União.

O Aviso indica as localidades que dispõem de canal para prestar o serviço, o que permite que outras entidades da mesma localidade se interessem e solicitem uma rádio. Cada entidade deve apresentar documentação num prazo de 45 dias após a publicação do Aviso de Habilitação que contemplou sua cidade.

A partir da documentação, serão escolhidas as entidades aptas a executarem o serviço (a documentação necessária pode ser conferida na página do Ministério das Comunicações. O órgão, então, publicará uma portaria autorizando a prestação do serviço e, em seguida, será emitida a licença para o funcionamento da rádio.

Caminhos para a autorização
É indispensável conhecer também que caminhos tomam os processos de autorização. Iniciam-se os trâmites no Ministério das Comunicações. Em seguida, os processos vão para a Presidência da República (Casa Civil/Secretaria de Relações Institucionais).

De lá, seguem então para o Congresso Nacional, para serem apreciados pela Câmara dos Deputados e Senado Federal (comissões obrigatórias e específicas). Por último, é assinado um decreto legislativo pelo presidente do Congresso Nacional e, posteriormente, é publicado o ato de outorga no Diário Oficial da União.

Legislação mais restringe que estimula rádios comunitárias
O cenário desenhado acima parece um tanto utópico, porém indispensável para o cumprimento dos objetivos de uma verdadeira rádio comunitária. Esse tipo de radiodifusão foi reconhecido legalmente no Brasil há 10 anos pela lei 9.612, de 1998. Legislação que, no entendimento de importantes entidades da sociedade civil que atuam no segmento, como a Associação Brasileira de Rádios Comunitárias (Abraço) e a Associação Mundial de Rádios Comunitárias (Amarc), mais proíbe e pune do que estimula e promove o serviço de radiodifusão comunitária.

E são vários os motivos para que o atual marco regulatório seja alvo de críticas. No que se refere à questão financeira, as emissoras estão impedidas divulgar publicidade em suas programações, sendo permitido apenas o apoio cultural (na forma de patrocínio) de estabelecimentos das localidades onde atuam.

Elas também estão proibidas de atuarem em rede (como acontece com as grandes emissoras de rádio e TV comerciais), exceto em situações de calamidade pública, guerras, epidemias ou em transmissões obrigatórias dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário (como a Voz do Brasil e as propagandas eleitorais, por exemplo).

A potência (25 watts) e o alcance do sinal (raio de 1 Km) destinados a uma emissora comunitária não contemplam os limites territoriais de inúmeras comunidades, como nos grandes centros urbanos, o que prejudica a cobertura e o trabalho dessas rádios.

A extensa lista de documentos a serem apresentados pelas entidades interessadas em explorar uma rádio é mais um dos inúmeros obstáculos encontrados no caminho da autorização. Após a publicação do Aviso de Habilitação, as entidades das cidades que dispõem de canal devem emitir, pelo menos, 16 documentos. Entre a papelada obrigatória, encontramos até mesmo manifestações individual e coletiva (este último, uma espécie de abaixo-assinado dos moradores da comunidade) de apoio à instalação da rádio, entre outros.

Saiba mais! Confira a
Lei 9.612, de 1998, que regulamenta a radiodifusão comunitária sonora, e também acesse toda a documentação necessária para se operar uma rádio na página do Ministério das Comunicações.

Na segunda e última parte do artigo A Saga das Rádios Comunitárias no Brasil, vamos abordar as dificuldades para a conquista de uma licença impostas pela lentidão no processo de autorização de uma emissora, saber o número de rádios autorizadas de 1999 até hoje e a quantidade de pedidos que aguardam serem avaliados pelo Poder Executivo federal. A realidade de perseguição e criminalização por parte da mídia privada e do Estado, e a influência de políticos e igrejas também serão destaque na semana seguinte.


Até a próxima!

domingo, 16 de novembro de 2008

Fórum de Mídia Livre: na luta contra-hegemônica da comunicação

O Fórum de Mídia Livre reúne estudantes e professores da área de comunicação, midiativistas, jornalistas, além de pessoas das mais diversas áreas do conhecimento que decidiram ingressar na luta por uma comunicação social, de fato, democrática, plural e de caráter público.

Em outubro passado, o Fórum de Mídia Livre divulgou um manifesto em que foram apresentadas todas as propostas debatidas e aprovadas entre os participantes do 1° Fórum de Mídia Livre, realizado na Universidade Federal do Rio de Janeiro, no mês de junho deste ano.

O documento destaca a necessidade da construção de políticas públicas democráticas para a comunicação no Brasil, com ênfase na distribuição equânime e transparente da publicidade governamental entre os veículos, de forma a fortalecer a mídia alternativa, e na mudança do processo de outorga e renovação de concessões de rádio e TV.

A realização de uma Conferência Nacional de Comunicação, com iniciativa do Governo Federal e participação do Congresso Nacional, para a discussão e a formulação de um novo marco regulatório para as comunicações, e a criação de uma rede colaborativa e integrada entre as diversas iniciativas de mídia independente, são outros destaques trazidos a público pelo Fórum de Mídia Livre. E que o blog Mídia Aberta faz questão de reproduzir na íntegra.


Manifesto da Mídia Livre

Pelo fortalecimento da mídia livre, por políticas públicas democráticas de comunicação e pela realização da Conferência Nacional de Comunicação

Brasil, outubro de 2008.

O setor da comunicação no Brasil não reflete os avanços que ao longo dos últimos trinta anos a sociedade brasileira garantiu em outras áreas. Tal conjuntura é uma das responsáveis pelo não crescimento democrático do país, impedindo que se torne socialmente mais justo.

A democracia brasileira precisa de maior diversidade informativa e de amplo direito à comunicação. Para que isso se torne realidade, é necessário modificar a lógica que impera no setor e que privilegia os interesses dos grandes grupos econômicos.

Não é mais possível aceitar que os movimentos sociais, protagonistas de muitos dos nossos avanços democráticos, sejam sistematicamente criminalizados – sem defesa, espaço ou meios para responder –, pela quase totalidade dos grupos midiáticos comerciais. Não se pode mais aceitar que, numa sociedade que se almeja democrática, apenas as idéias e informações ligadas aos interesses políticos e econômicos de pequenos grupos tenham expressão pública. Tal cenário nega o direito de todas e todos a ter acesso ao contraditório, violando o direito à informação dos cidadãos.

Um Estado democrático deve assegurar que os mais distintos pontos de vista tenham expressão pública, situação tão distante da realidade em nosso país. No Brasil, menos de uma dezena de famílias controla a quase totalidade dos meios de comunicação, numa prática explícita de monopólios e oligopólios – que seguem sendo realidade, embora proibidos pela Constituição Federal.

Ainda segundo a Constituição, deve-se criar um amplo e diversificado sistema público de comunicação, produzido pelo público, para o público, com o público. Um sistema que ofereça à sociedade informação jornalística e programação cultural-educativa para além da lógica do mercado, sintonizadas às várias áreas do conhecimento e à valorização da produção regional e independente.

Por fim, um Estado democrático precisa defender a verdadeira liberdade de expressão e de acesso à informação, em toda sua dimensão política e pública. Um avanço que acontece, essencialmente, quando cidadãs e cidadãos, bem como os diversos grupos sociais, têm condições de expressar suas opiniões, reflexões e provocações de forma livre, e de alcançar, de modo equânime, toda a variedade de pontos de vista que compõe o universo ideológico de uma sociedade.

Para que essa luta democrática se fortaleça, apresentamos a seguir propostas debatidas e aprovadas entre os cerca de 400 participantes do 1° Fórum de Mídia Livre, realizado na Universidade Federal do Rio de Janeiro nos dias 14 e 15 de junho de 2008.

Ficam estabelecidos os seguintes compromissos:

1. Promover uma campanha e mobilização social pela democratização das verbas publicitárias públicas, com a realização, entre outras, das seguintes ações:

- Desenvolvimento, pelo Fórum de Mídia Livre e organizações parceiras, de critérios democráticos e transparentes de distribuição das verbas públicas que visem à democratização da comunicação e que se efetivem como legislação e políticas públicas;

- Proposta de revisão dos critérios e “parâmetros técnicos de mídia” (tais como custo por mil etc.) utilizados pela administração pública, de forma a combater os fundamentos exclusivamente mercadológicos e viabilizar o acesso a veículos de menor circulação ou sem verificação.

2. Contribuir na promoção de outras políticas públicas de incentivo à pluralidade e à diversidade por meio do fomento à produção e à distribuição;

3. Cobrar do Executivo federal que convoque e dê suporte à realização de uma Conferência Nacional de Comunicações nos moldes das conferências de outros setores já realizadas no país;

4. Lutar pelo estabelecimento de políticas democráticas de comunicação, na perspectiva de um novo marco regulatório para o setor que inclua um novo processo de outorga das concessões, a democratização e universalização da banda larga e a adoção do padrão nacional nos sistemas brasileiros de TV e rádio digital, além do fortalecimento das rádios comunitárias;

5. Criar uma ferramenta colaborativa que reúna diversas iniciativas de mídia livre e contemple a diversidade de atuação dos veículos e dos midialivristas, em formato a ser aprimorado nos próximos meses pelo grupo de trabalho permanente e aprovado no próximo Fórum de Mídia Livre;

6. Mapear as diversas iniciativas da mídia livre visando o conhecimento sobre a realidade do setor e o reconhecimento dos diversos fazedores de mídia;

7. Propor a implementação de pontos de mídia, como política pública, integrados e articulados aos pontos de cultura, veículos comunitários, escolas e ao desenvolvimento local, viabilizando, por meio de infra -estrutura tecnológica e pública, a produção, distribuição e difusão de mídia
livre;


8. Buscar espaços para exibição de conteúdo produzido por movimentos sociais na TV pública;

9. Incentivar a consolidação de redes de produtores de mídia alternativa, a começar da comunicação interna (listas de discussões) e externa (portal na web) dos próprios integrantes do Fórum de Mídia Livre, que deve funcionar como rede flexível, difusa e permanente;

10. Estimular a criação e fortalecimento de modelos de gestão colaborativa das iniciativas e mídias, com organização não-monetária do trabalho, por meio de sistemas de trocas de serviço.

Em função destes compromissos, nos propomos a:

- realizar encontros de mídia livre em todos os estados brasileiros no segundo semestre de 2009;

- realizar um Fórum de Mídia Livre de alcance Latino-Americano ou mundial em Belém, às vésperas do Fórum Social Mundial, em janeiro de 2009;

- realizar no 2º semestre de 2009 o II FML Brasil, com indicativo de Vitória (ES) como sede;

- somar-se às entidades de luta pela democratização na luta por uma conferência ampla, democrática e descentralizada, passando a integrar a Comissão Pró-Conferência Nacional de Comunicação;

- envolver os movimentos sociais nas ações pelo fortalecimento da mídia livre;

- agendar em âmbito federal, estadual e municipal reuniões com o Poder Executivo, Legislativo e Judiciário para apresentar as reivindicações tiradas no Fórum;

- criar o selo Mídia Livre para estar em todos os veículos, blogues etc. que se identificam e reconhecem como mídia livre;

- realizar ato público de rua em Brasília, com pauta e mobilização conjunta com outros movimentos da comunicação e outros movimentos sociais, articulado com a entrega do manifesto aos três poderes, como parte de semana de mobilização que contará também com ações de guerrilha midiática e viral.

Fórum de Mídia Livre

sábado, 7 de junho de 2008

Todos por uma Conferência Nacional de Comunicação ampla, democrática, participativa e plural

Se existe um tema que se mostra tão próximo de todo cidadão, mas ao mesmo tempo tão distante e desconhecido por ele, este é a comunicação. Especialmente no Brasil, onde esse campo é historicamente abordado de forma unilateral pelo poder público e às escondidas, longe dos olhos da população, além de ser dominado por grupos empresariais e políticos, famílias e igrejas. Mencionar as expressões Democratização da Mídia ou mesmo Políticas Públicas de Comunicação é, para esses setores dominantes, sinônimo de censura.

Entretanto, com o objetivo muito maior do que apenas propor a democracia na mídia ou políticas públicas de comunicação para o segmento, mas principalmente trazer a sociedade em seus diversos setores e interesses para o debate sobre a realidade dos meios de comunicação no Brasil, deu-se início o Movimento Pró-Conferência de Comunicação.

A organização foi criada em junho de 2007, a partir de um Encontro Nacional de Comunicação, com a participação da Comissão de Direitos Humanos e Minorias Sociais (CDH) e da
Comissão de Ciência, Tecnologia, Comunicação e Informática (CCTCI) - ambas do Câmara dos Deputados - do Ministério Público Federal e com o apoio de mais de 30 entidades da sociedade civil organizada dos mais variados campos de atuação, como o FNDC, Intervozes, Fenaj, Abraço, CUT, Ética na TV, CIMI, MST, OAB, Conselho Federal de Psicologia, UNE, Enecos, entre muitas outras.

Vale destacar também o empenho de alguns parlamentares para a realização de uma conferência da comunicação, a exemplo dos petistas Maria do Carmo Lara (MG), Luiz Couto (PB), Iriny Lopes (ES) Jorge Bittar (RJ), de Luiza Erundina (PSB-SP), entre outros que apóiam a idéia.

O Movimento surgiu da necessidade de realizar uma Conferência Nacional de Comunicação, que pretende reunir em um mesmo espaço de discussão representações do Governo Federal, do Congresso Nacional, do empresariado da mídia e da sociedade civil para tratar de maneira democrática e aberta o que sempre esteve invisível aos olhos dos cidadãos, ou seja, políticas públicas e a legislação das comunicações no Brasil.

Características, objetivos, formato e temas


Uma conferência ampla, democrática, plural e precedida com etapas locais e estaduais. Assim é a característica mais importante defendida pelo Movimento Pró-Conferência que, além disso, busca junto ao Executivo Federal a convocação oficial do evento ainda para este ano de 2008 por meio de seus órgãos competentes. A realização de etapas regionais antes da nacional se baseia em outras conferências organizadas no âmbito dos ministérios da Cultura, das Cidades, da Saúde, entre outros.

É esperada a criação de um Grupo de Trabalho (GT) junto ao Ministério das Comunicações, com a participação do governo, dos empresários e da sociedade para que todos os detalhes da Conferência Nacional sejam definidos, como o modelo, a estrutura, a organização, o calendário e os temas a serem debatidos no evento. Para que tudo isso aconteça, é preciso a aprovação de um Regimento Interno pelo Governo Federal para a comissão que vai cuidar da Conferência.

Entre os principais objetivos que irão nortear a Conferência Nacional de Comunicação estão o de identificar os maiores desafios da comunicação no país, fazer um balanço das ações implementadas pelo poder público para o setor até hoje, traçar as diretrizes das políticas públicas de comunicação e, dentro disso, estabelecer as prioridades de ações governamentais a serem buscadas. A comunicação como um direito humano fundamental é uma das propostas temáticas para a Conferência, incluindo nesse quesito as questões raciais e de gênero, a liberdade de expressão, a inclusão digital, a diversidade cultural e religiosa, a regionalização da produção, entre outros enfoques.

A Conferência Nacional de Comunicação traz ainda três eixos de discussão: Meios de Comunicação (que engloba mídia impressa, rádio, TV, internet, telecomunicações por assinatura, cinema etc.), Cadeia Produtiva (que envolve os processos de produção, programação, provimento, distribuição e recepção de conteúdos) e, por fim, o Sistema de Comunicação (nos âmbitos público, privado e estatal).

Para 2008 e os próximos três anos, já estão garantidos no Orçamento do Governo Federal e no Plano Plurianual (2008/2011) os recursos para a construção da primeira grande conferência da área de comunicação no Brasil. Serão R$ 6 milhões para este ano, R$ 4 milhões em 2009, R$ 6 milhões em 2010 e R$ 4 milhões em 2011, totalizando R$ 20 milhões.

Conferência Nacional é demanda antiga, porém necessária

A realização de uma Conferência Nacional de Comunicação no Brasil não é proposta nova. A idéia de um evento dessa magnitude já foi lembrada em várias oportunidades por entidades atuantes no campo da democratização da mídia, como o Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC) e o Intervozes – Coletivo de Comunicação Social, só para citar alguns nomes.

No âmbito do Estado brasileiro, o interesse por uma conferência de comunicação emergiu no período em que Lula disputava a reeleição, em 2006. A proposta compunha o
Caderno Setorial: Comunicação e Democracia, onde o Partido dos Trabalhadores (PT) coloca a comunicação social num dos patamares mais relevantes para a existência de uma democracia plena e concreta.

A “Participação Popular” nos espaços que delimitarão os rumos da comunicação social no Brasil é umas das principais proposições que figuram no caderno setorial do programa do governo Lula. Os itens previstos são a realização de conferências nos âmbitos municipais, estaduais e nacional, com o intuito de formular propostas para o setor de comunicação social, além da implantação de mecanismos e conselhos que permitam a ampliação da participação popular “na elaboração, acompanhamento e fiscalização” das políticas públicas voltadas para a área.

Tais idéias trazidas no programa eleitoral do governo do PT se aproximam bastante do que é defendido pelos movimentos sociais voltados à democratização das comunicações no Brasil, isto é, a realização de uma Conferência Nacional de Comunicação com o objetivo de mobilizar toda a sociedade no sentido de colocar a mídia no centro do debate público, como deve ser feito de forma ininterrupta e cotidiana tanto pelo poder público quanto pela população.

Que venha, então, a Conferência Nacional de Comunicação. Que ela seja um divisor de águas verdadeiramente democrático e transformador na história da comunicação brasileira e das políticas para o setor. Para tanto, é indispensável a participação e o acompanhamento de todos nesse momento importante! Saiba mais acessando a página na internet do
Movimento Pró-Conferência Nacional de Comunicação.

Até a próxima!

sexta-feira, 2 de maio de 2008

TV Brasil: Conceitos, objetivos e contradições da nova emissora pública de televisão

TV Brasil: Você escolhe, você programa, você assiste. Esse é o slogan da nova rede de televisão pública, criada pelo Governo Federal nos últimos dias com a sanção da Lei 11.652/08, que institui a Empresa Brasil de Comunicação (EBC), incluindo a TV Brasil. Contudo, é indispensável narrar aqui os caminhos percorridos até a sua aprovação e conhecer mais profundamente o que é, o que pretende ser e o que a sociedade tem a ver com a nova rede pública de comunicação gerada pelo governo Lula.

Tudo começou pela Medida Provisória 398, editada pelo Governo Federal em 2007, que determinou a fusão das estatais Radiobrás e TVE Brasil do Rio de Janeiro para a implantação de uma nova rede pública de comunicação. Em meio a críticas quanto à sua validade constitucional feitas pela oposição (DEM em PSDB), a MP que cria a Empresa Brasil de Comunicação (EBC) e a TV Brasil tomou o rumo da Câmara dos Deputados, onde sofreu algumas modificações em seu texto.

Após ser objeto de discussão e, em seguida, aprovada com alterações, a MP 398/07 seguiu para o Senado Federal. Lá, quando muitos previam uma votação complicada por conta de uma forte oposição ao governo, a Medida Provisória que institui a rede pública de comunicação se transformou na lei 11.652/08 e foi ratificada sem quaisquer alterações pelos senadores. O governo, então, sancionou a lei que cria oficialmente a TV Brasil e estabelece suas diretrizes e princípios de funcionamento.

A Empresa Brasil de Comunicação (EBC) é subordinada à Secretaria de Comunicação Social do Governo Federal, liderada pelo ministro Franklin Martins. A EBC agrega cinco emissoras de rádio, uma agência de notícias na internet (Agência Brasil), três emissoras de televisão (TV NBr, TV Brasil e TV Nacional), e dois programas de rádio (Café com o Presidente e A Voz do Brasil). A empresa tem sede em Brasília, mas o centro de produção localiza-se no Rio de Janeiro.


Fontes de recursos

Com a clara e correta preocupação de manter a independência editorial e de programação frente ao governo federal, a Empresa Brasil de Comunicação terá fontes diversas de recursos, entre elas as oriundas do orçamento da União, doações de pessoas físicas ou jurídicas, da prestação de serviços de comunicação, de patrocínio ou apoio cultural de entidades públicas ou privadas, do licenciamento de marcas e produtos da empresa, do Fundo de Fiscalização das Telecomunicações (Fistel) referente a 10% do valor pago pelas empresas de comunicação (teles e radiodifusoras), da Contribuição para o Fomento da Radiodifusão Pública (com 75% dos recursos vinculados à EBC), da publicidade institucional de entidades públicas ou privadas, da publicidade legal de órgãos da administração federal, entre outras fontes de financiamento.

Produções regionais e independentes

A intenção do governo é erguer uma rede pública nacional de televisão a partir de convênios com Estados, Municípios e entidades públicas ou privadas que prestam serviços de radiodifusão (rádio e TV). É válido destacar a importância de não se repetir o formato desigual e ilegal do sistema de televisão que impera no Brasil.

No atual sistema, as grandes emissoras de TV, por meio de suas cabeças-de-rede (geradoras de programação nacional) mantêm subordinadas às suas programações centenas de afiliadas. São emissoras que dão pouco espaço a produções de suas próprias regiões e reproduzem quase todo o conteúdo elaborado pelas grandes redes de Rio e São Paulo.

Para a programação regional e independente que serão inseridas na TV Pública foi reservado um tempo mínimo de 10% e 5%, respectivamente. Tais programas deverão ser exibidos no período entre as 6 e as 24 horas. A lei 11.652/08 garante que todas as regiões do país terão espaço para mostrar ao Brasil sua diversidade cultural. Com relação às produções independentes, a exigência é que as produtoras não tenham qualquer vínculo com emissoras de radiodifusão.

Tudo isso representa um salto importante, se considerarmos o espaço ínfimo que é destinado ao conteúdo regional nas grandes redes de TV comerciais. Sem contar a produção independente, com espaço quase nulo nas grades de programação das emissoras privadas, que veiculam apenas produções próprias, quando não raro exibem uma série de enlatados importados.

Restrição à publicidade comercial

A publicidade de produtos e serviços na programação da TV Brasil está proibida. A exceção ficou por conta da publicidade institucional e do chamado apoio cultural. A publicidade de cunho institucional, antes resumida à vinculação em programas de utilidade pública de empresas, foi liberada para entidades de direito público ou privado e devem ocupar o tempo máximo de 15% da programação.

Quanto ao conceito de apoio cultural, motivo de muitas queixas por parte da oposição e dos empresários de radiodifusão (rádio e TV) após a publicação da MP 398 em 2007, estes com medo de perder publicidade, ficou definido como sendo o pagamento dos custos de determinados programas ou de toda a programação, e sua inserção se dará por meio da citação das entidades apoiadoras, bem como de suas ações de caráter institucional.

Veto do Presidente

Cedendo à pressão dos barões da mídia, especialmente da Rede Globo – representada pela Associação Brasileira das Emissoras de Rádio e Televisão (ABERT) – o presidente Lula vetou um artigo que incomodava diretamente os interesses econômicos das grandes redes TV. A lei que cria a TV Brasil, antes do veto, determinava que os direitos das transmissões de eventos esportivos internacionais, adquiridos pelas TVs comerciais, nos quais o Brasil teria competidores - como Olimpíadas, Copa do Mundo, Pan-Americano, entre outros – seriam cedidos para a TV pública. Essa possibilidade se daria mediante a não transmissão de alguns jogos pelas emissoras detentoras dos direitos de exibição.

Ou seja, as tevês comerciais não ficariam impedidas de transmitir as competições cujos direitos elas compraram, mas sim teriam apenas que liberar à TV Brasil o direito de oferecer ao público a oportunidade de assistir aos eventos não levados ao ar pelas grandes redes de televisão. O que é comum acontecer quando alguma competição não se encaixa na grade programação de emissoras como a Globo, por exemplo.

Para deixar mais claro, nem todas as modalidades esportivas durante os jogos olímpicos encontram espaço nas transmissões das tevês privadas, as quais privilegiam apenas esportes populares (futebol, vôlei, basquete etc.). Logo, mesmo sendo parte do pacote comprado por essas emissoras, modalidades pouco conhecidas do grande público não são transmitidas. É nesse ponto que entra o artigo vetado da lei 11.652/08.

Em síntese, seria uma boa oportunidade de se quebrar o monopólio de transmissão de grandes eventos atualmente nas mãos da Rede Globo. E quem mais saiu perdendo fomos nós, telespectadores, reféns do autoritarismo dos “donos da mídia” e da subserviência do poder público.

A missão da nova TV Pública

Os princípios e objetivos a serem buscados pela nova rede pública de comunicação não representam novidade alguma, uma vez que já constam da Constituição Federal obrigações semelhantes a serem obedecidas (mas não são!) por todo e qualquer meio de comunicação (privado ou público) no Brasil. Entretanto, vale citá-los neste artigo.

A nova TV Pública deve garantir: a pluralidade de conteúdo e de fontes de produção; o acesso do cidadão à informação plural para sua formação crítica; a promoção da cultura regional em toda a sua diversidade e o incentivo à produção independente; programação voltada para a educação, a cultura, e a informação de interesse público; a participação da sociedade civil, em seus diversos segmentos, na gestão e na programação; autonomia frente ao governo para definir produção, programação e distribuição do conteúdo na rede pública; o fortalecimento da democracia e a formação do cidadão, entre outros princípios e objetivos.

Resumindo, num contexto em que as emissoras comerciais ocupam todos os espaços da sociedade, produzindo e transmitindo quase tudo o que os brasileiros vêem, o nascimento da TV Brasil pode provocar futuramente um abalo nessa hegemonia e conquistar uma audiência cativa, mas sem renunciar aos seus princípios de oferecer uma programação diferenciada e de qualidade.

O Conselho Curador e a sociedade

Como em toda hierarquia de uma empresa, pública ou privada, a EBC tem seu presidente e seus diretores. No entanto, o ponto relevante neste caso é o funcionamento de um Conselho Curador, espaço este que tem a nobre e difícil missão de representar os interesses de toda a sociedade na nova rede pública de comunicação, além de fiscalizar e zelar pelo cumprimento dos princípios da TV pública.

O Conselho é composto de 22 membros, sendo 15 deles (
clique aqui para conhecê-los) na função de porta-vozes da população e o restante formado por ministros de Estado, um em nome dos funcionários da EBC, um indicado pela Câmara dos Deputados e outro escolhido pelo Senado Federal. Os representantes da sociedade e os indicados pelo Congresso Nacional terão um mandado de quatro anos, renovável uma única vez. Já o que representa os funcionários terá um mandado de apenas dois anos, sem direito à renovação.

A questão polêmica e geradora de muitas dúvidas reside na forma como são escolhidos os representantes da sociedade civil para compor o Conselho Curador da EBC. É tarefa do presidente da República escolher e nomear os membros do Conselho, inclusive os que vão representar o povo, segundo critérios de diversidade cultural e pluralidade de profissões, além de que pelo menos cada uma das cinco regiões brasileiras deve ser representada por um dos conselheiros.

A lei 11.652/08, que cria a EBC e a TV Brasil, estabelece total autonomia da produção, programação e distribuição do conteúdo produzido pela empresa em relação ao Governo Federal. Ou seja, não se pode deixar de cogitar o risco de que esta independência, enfatizada pela lei, possa ser prejudicada em razão do poder que o presidente tem em mãos para escolher os membros que “são a sociedade” na rede pública de televisão. Sobre a questão, a lei que cria a TV pública determina que o Conselho Curador organize uma consulta pública nos processos futuros de renovações em sua composição.

A maior crítica, talvez, que tenha sido direcionada ao Conselho Curador refere-se à falta de mecanismos que permitam a participação direta e constante da sociedade na gestão e no controle da programação da TV pública. Sabe-se, por enquanto, que haverá duas audiências públicas a cada semestre, porém com participação restrita a entidades organizadas ligadas ao campo da comunicação e da cultura. Por enquanto, um dos únicos espaços ao alcance do público está na página da TV Brasil na internet (
clique aqui para acessar). Lá, qualquer pessoa pode dar sugestões e fazer críticas sobre a programação da TV pública.

Além do Conselho Curador, um outro espaço de acompanhamento e análise da programação da nova TV pública foi criado. A EBC vai contar com uma Ouvidoria, cuja atribuição é fazer críticas internas à programação da TV Brasil e analisar as opiniões recebidas dos telespectadores. O ouvidor vai comandar um programa, com duração de 15 minutos, onde vai tornar públicas suas avaliações a respeito do conteúdo exibido pela rede pública de televisão.

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O fato é que a TV Brasil necessita o mais breve possível tornar realidade formas democráticas e eficazes de participação de toda a sociedade na nova emissora. Isso significa ir além dos limites e atribuições do Conselho Curador, da Ouvidoria e das audiências públicas, ainda que tais mecanismos sejam indispensáveis. Só assim o Brasil terá, de fato, uma rede de televisão verdadeiramente PÚBLICA e de todos os brasileiros. Por fim, que a nova TV pública não seja apenas fruto de um momento político, mas que faça parte de uma política pública de comunicação de Estado democrática, perene e de longo prazo. Vida longa à TV Brasil. Assistam e participem!

Até a próxima!